31.12.12
Fragmento
talvez eu tente, sim, ajustar-te a esse mundo de corpos fechados, corações dormentes e mãos armadas.
e de ti, minha menina, só espero poder estancar o coração varado de flechas e, quem sabe, um dia te sintas adequada.
27.11.12
Na última folha do meu caderno, uma história
Uma mulher me observa dentro do ônibus enquanto olho desatenta o rio pelo qual passamos. Me pergunta, certeira:
- Você está pensando em alguém, não é?
Sorrio impressionada. Mas que perspicaz! Tento disfarçar, dizendo:
- Pensando na vida...
Não satisfeita, dispara:
- Com esse sorriso no rosto? Não! Você está pensando em alguém, sim.
E agora? Desmascarada, sorrio novamente, dessa vez acompanhada da esperta senhora.
Desço do ônibus, cheguei ao meu destino. Ainda estou sorrindo, encantada com a delicadeza e atenção daquela mulher que provavelmente nunca mais verei na vida, mas que me decifrou em alguns segundos.
Mas que perspicaz!, pensei. Atravessei a rua, segui caminhando para encontrar o motivo daquela interação inusitada. Finalmente, o encontrei. O dono dos meus pensamentos - os bons e os ruins - e do meu agora antigo sorriso espontâneo.
Quem me dera passar mais tempo com aquela senhora e, quem sabe, aprender como posso voltar a ter aquele sorriso bobo no rosto. Aquela sensação de que existia, ainda que distante, um "nós".
7.9.12
7 de setembro. 2012.
19.5.12
toda sorte
disfarçada por recursos e lírica
antes fosse, antes fosse.
antes fosse a minha sorte
que no lugar de você
fosse qualquer sorte ou azar.
mas foi minha, minha poesia
e te fez sorte,
e te trouxe disfarçada.
antes fosse azar escancarado
antes admitisse o veneno,
que, por um beijo, me contaminasse.
antes fosses anunciado
azar meu, sorte minha
antes levasse a poesia,
e me deixasse intacta
antes meu azar do que isto
isto que não restou e
e.
28.4.12
Na encruzilhada sem nome em que a impossibilidade de continuar a querer se faz real.
Cá estou eu a sentir liquefeito tudo aquilo que era sólido, seguro, constante.
Cá estou a tentar secar os rastros de você espalhados pela pele fria, pálida.
E você da dor em mim nada sabe. Não saberá.
A tristeza se com veste uma bela máscara, essa mesma que te cumprimenta.
2.4.12
There is a song for the blue
29.3.12
há de haver
8.3.12
diz-se das viagens para dentro e fora de nós mesmos
26.2.12
Da espera
12.2.12
Sem cobertura
O seguro não cobre esse tipo de avaria, senhor. O relatório de avaliação informa que nossa perícia não pôde identificar a extensão e a gravidade das suas lesões. Até onde podemos afirmar, não há um tratamento conhecido que seja eficaz. Mais uma vez, nossa empresa reforça que abrangemos cerca de 98% das doenças conhecidas, trabalhamos com especialistas experientes e reconhecidos, prezando sempre por um de nível de excelência. Esperamos que nosso contrato permaneça vigente por muitos anos, garantindo a saúde do senhor nos mais diversos momentos de necessidade. Infelizmente, não podemos tratá-lo agora, mas esteja certo de que a AS Seguros e Reparos envia os mais sinceros votos de saúde ao seu coração.
5.2.12
Sobre perdas e vagas não preenchidas
Coisas que você não vê se estiver distraído
30.1.12
a falta que faz
29.1.12
Recife faz mal ao coração II
Recife faz mal aos corações médio e pequeno burgueses. Nós, que pagamos pelas fantasias realizadas por homens alheios à boemia e ao saudosismo que inspiram nossas vãs paixões. Eles, que vendem sonhos e romance em pequenos botes jogados às águas de rios sedentos de lágrimas.
Essa brisa que dá no Recife faz mal ao coração. Brisa doce, cheia de lembranças. Essas ruas do Recife fazem mal ao coração. Cada calçada e cada esquina te esperam para o dèjá vu de um beijo, um abraço que não voltará a acontecer. Recife e suas ruas fazem muito mal ao coração daqueles que se permitem apaixonar pelos detalhes, pelos sussurros, pelas promessas de retorno. Nos apaixonamos pelos corações desenhados na palma da mão, pelos acenos de dentro do táxi.
Quantos corações não choraram às margens dos rios que recortam essa cidade? Quantos não choraram suas decepções, entraram num bote e alimentaram a ilusão de que acabaria tudo bem? E os homens que os levaram mar adentro, o que amaram? Quantos passageiros e navegantes não escreveram poemas assistindo à vida que vai e vem pelos rios e ruas do Recife?
Se foram. As dores, as paixões, as noites, os vendedores de romance e os jovens tolos, as ilusões. Todos foram, todos vão. Mas a cidade, as marcas que nela e por ela foram feitas permanecem.
Pois Recife é exatamente isso: uma cidade de passagem. Onde se encontra e se perde. Vai-se embora, mas as marcas ficam em você. Não custa avisar, mais uma vez: Recife faz um mal danado ao coração, cuida do teu.
28.1.12
De onde vem as respostas
Deito, passo a encarar a escuridão. Procuro atravessar a espessa camada do escuro sólido, aquele que paira no ar e sussurra aos nossos ouvidos nos momentos de medo. Alcanço a verdadeira escuridão. Liberta de sons, cheiros ou qualquer movimento. A escuridão dos sentidos, o reduto dos meus sentimentos e pensamentos mais profundos e sombrios. Posso passar horas revisitando cenas antigas, recontar momentos e criar um futuro que só existe na minha própria cabeça, no canto escuro dos meus desejos e inquietações. O local onde guardo meus bens mais preciosos, a escuridão, por vezes iluminada, dentro de mim. Segundos arrastam-se por horas, deixam um rastro e revolvem meu estômago, como se descesse uma escadaria interminável em círculos, cada vez mais rápido, cada vez mais fundo, mais escuro. Descendo, lembrando, sonhando, sofrendo, revivendo, escondendo até que finalmente sou puxada de volta pelo ventre. Arremessam-se para fora do redemoinho de sentimentos e, enfim, abro os olhos. Sei a resposta. Tudo o que consigo enxergar é o teto. E uma saída.

