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22.8.11

Sobre ser nós e ser agora

E quando eu menos esperar você vai estar na minha porta, nu, com o coração nas mãos pronto para me entregar e se entregar a mim. Louco, não? O que me assusta mais não é a mudança das coisas, é só que eu talvez não aceite e não te deixe entrar. Não lamento pensar que você não marcará mais que uma estação em mim, o triste é pensar que talvez o teu gosto sumirá no meio das minhas memórias. Esse teu gosto que me enlouquece e sacia pode, uma hora, ser mais “bom dia” esquecido numa manhã de segunda-feira qualquer. Eu não queria te perder desse jeito, então se apresse. Não perca o tempo que é nosso, porque ele é agora. Não me entristece não te ter daqui a dois anos porque eu te quero agora e só agora. É de agora’s que eu tenho feito meu caminho, então não chega aqui, cruza ele e descumpre o protocolo. Nós precisamos deixar marcas, eu, você, nós em nós. É só disso que eu to falando, meu amor. Não te quero pra sempre, a inevitabilidade da falência não me surpreende, por isso que quero aos poucos. Mas que aos poucos seja intenso e que deixe marcas. Diga que vou poder tatuar o gosto da tua língua no meu salão de memórias, sim? Deixa que o teu toque permaneça inalterável e vívido na eternidade das minhas lembranças, porque eu quero lembrar de você. Não me culpe, não me julgue, eu não sou mais uma menina inocente. Nós só existe agora, eu sei. Mas eu quero e exijo ter boas lembranças dos nossos momentos. O depois vai se construindo a cada dia e é hoje que temos que ser só nós, coração nus e em nossas mãos, um na porta do outro pra se entregar.

26.7.11

Chora não, Ben que disse


Hoje quem me sorriu foi o céu. De azul clarinho clarinho que tava, sussurrou que não devo chorar.
No compasso do samba eu acordei, devagarzinho vagarzinho.
É que menina bonita não chora, meu bem, chora não.
Sorri pro dia e deixa que ele que te leve.
Porque faz sol e o céu tá clarinho, menina, azulzinho pra você.
Chora não que ele te leva pro teu amor.
Chora não que sempre tem outro dia, e se não tiver, tem outro amor.


#Inspirado em Menina Bonita Não chora, de Jorge Ben Jor.

17.7.11

Não há título para este conto

Num vilarejo remoto, um lugar dividido entre grandes agropecuários e um povo escravo do latifúndio, certo dia, ao nascer do dia, nasceu do ventre de Madalena um serzinho encolhido e repuxado. Como quem não queria sair das trevas, gritou quando o retiraram das entranhas da genitora, recusando a abrir os olhos, foi açoitada por algum dito médico, abrindo finalmente os olhos pra mirar pela primeira vez uma fresta de luz que entrava pela janela. Devido a grande revolta em nascer, colocaram-lhe o nome de Hera. Antônio, seu pai, importante criador da região, foi o idealizador do nome, nas horas vagas ele gostava de dedicar-se ao estudo da história, filosofia e artes. Bom, foi também nessas horas vagas que Fernando, braço direto de Antônio, fecundou o ventre de Madelena sem que o marido soubesse. Eis a 'árvore genealógica' de Hera, menina que nasceu com cara de nojo, já insatisfeita com a situação em que foi gerada.



Quieta, foi crescendo sem que sua mãe a percebesse, esta sempre estava ocupada com a nova coleção de sapatos que seria lançada na capital - a qual sempre era levada pelo fiel empregado da família, Fernando - ou torrava o tempo paparicando o marido, quando este saia da biblioteca. Era uma boa esposa, não posso negar. Alimentava-o, satisfazia-o, tomava todos os cuidados para que ele não descobrisse seu adultério. Antônio, por sua vez, vivia uma vida menos agitada, da fazenda para casa e, nessa, não saia de perto dos seus livros, distraindo-se apenas com a pequena Hera, que desde cedo trocou os brinquedos pelas edições velhas e ruídas dos clássicos da mitologia de seu pai. A filha era sua maior felicidade, ela não parecia com a mãe que, mesmo sendo uma esposa exemplar, nunca o satisfez por completo, como também aquela vida de agropecuário. Antônio sempre quis estudar, viajar, explorar o mundo e suas oportunidades, mas sua vida foi ceifada quando seu pai morreu cedo e deixou-lhe os negócios da família. Com os sonhos veio também a negação, Antônio nunca conseguiu realizar o desejo estranho e poderoso que sentia de aproximar-se de Fernando, seu principal funcionário, o qual praticamente tocava a fazenda sozinho.



Assim era a dinâmica da casa, Fernando entrava e saia a todo momento, sendo constantemente requisitado pela mãe e pelo pai, enquanto Hera caminhava sorrateira pelos cantos e quinas da casa, sempre encolhida e intimidada pela presença daquele homem. Desde que se entendia por gente ele o olhava de maneira estranha, ela não sabia explicar o que aquilo significava. Mas daí que Hera cresceu, e cresceu como espectadora privilegiada da encenação que tinha como família. De coisinha encolhida, a menina tornou-se bela logo cedo, passando a chamar a atenção de sua mãe, que vez ou outra a tentava cooptar para discussões sobre novas tendências da moda parisiense. Hera escapava com facilidade, refugiando-se com seu pai na biblioteca, onde todos os dias ela conhecia alguém especial, de Heráclito a Sartre, passando por Hitler e chegando a Dan Brown. Facinava-a a diversidade de pensamentos das pessoas, ela se alimentava de cada sílaba e a absorvia de maneira singular: Hera não acreditava em nada, mas encantava-se por conhecer tudo, não conseguia concordar com nada, estava sempre a questionar. A menina que tinha tudo aos seus pés nunca suportou ter ordens apenas acatadas. Quando mais nova, costumava brincar com algumas crianças da fazenda, estas eram avisados por seus pais para a tratarem com distinção, mas Hera, insatisfeita, provocava as crianças e arrumava brigas com os meninos, pelo simples prazer de ser contrariada e ter uma relação legítima com qualquer um.



Hera queria o caos em sua vida. Não admitia a inércia com que seus pais se acomodaram e estagnaram suas vidas. Foi assim que, aos 17 anos, viajou para outro país, a princípio para estudar. Infelizmente para ela, o mundo pareceu mais uma extensão daquilo que ela sempre teve em casa. A menina que rapidamente tomara feições de mulher, experimentou do céu e da terra tudo o que lhe vier à mente, mas nada a fez acreditar em nada. Apesar disso, creio que que felizmente, a garota não se sentia vazia, não, Hera gostava de pensar que era sedenta por ser preenchida, portanto não havia motivo para encerrar sua vida, ela gostava dela afinal.



Ela se envolveu nos mais diversos movimentos, sem nenhum apego especial, satisfazia-se com a experiência mesmo. Hera era doce, tenho que confessar. Dificilmente brincava em seus lábios um sorriso que só posso descrever como a primeira fresta de luz que entra pela janela e queima a pele vagarosamente, deixando um rastro de arrepio. Fora o sorriso, que era um oásis no meio do caos, eram os olhos de Hera que faziam todos prender a respiração. Olhos negros como petróleo, profundos e confusos. Eu perdi a conta de quantas vezes me afoguei naquele olhar encoberto por uma mecha de cabelo. Os olhos da menina eram a entrada para as trevas que dominavam seu coração-cérebro - pois aqui te aviso logo, Hera não tinha um coração e um cérebro. Ela tinha algo estranho, que preferiu unir e ser a razão dela nascer assim, estranha ao mundo e a si própria.



É engraçado como as horas marcaram a vida dela, a conheci quando a primeira fresta de luz rompeu o céu negro. Ela estava sentava na areia e, enquanto as pessoas ao redor ou drogavam-se ou estavam envolvidos numa orgia, ela apenas abraçou as pernas e encostou o queixo no joelho, como numa posição fetal. Balançando devagar de um lado para o outro, ela começou a murmurar alguma canção para embalar seus demônios e anjos, eu imagino.



Eu nunca estive tão atento a aquela menina por quem todos perdiam a cabeça e constantemente fugiam sem motivo aparente. De algum modo, ela compreendia que não era aceita pelo que era. Até os mais modernos e transgressores recuavam na presença real dela. Mas naquele momento em que ela embalava a si própria no meio do caos meu cérebro parou e fiquei suspenso no tempo pelo que pareceu ser horas, enquanto eu apenas ouvia o ruído da sua voz trazida pelo vento. Hera nunca soube, mas naquele amanhecer ela tornou-se dona da minha vida. Eu era seu fiel escudeiro(não que ela precisasse de proteção), seu melhor amigo, seu amante nas horas de carência. Mas eu nunca pude confessar que a queria pra mim, já que eu nunca a teria, ela não nasceu pra ser de ninguém. Hera se traduz em medo e desejo para mim que, covarde, deixei por muito tempo o medo prevalecer. Certa vez eu vi coração e cérebro de Hera explodirem de insatisfãção, creio ter sido o momento em que a ela esteve mais insegura em suas certezas, quando me confessou: "Eu devo viver". Então ela me sorriu, uma fresta de sol entrava pela cortina e as portas das suas trevas se abriram na minha frente. Hera moveu os lábios lentamente como se aquilo a machucasse e disse "Você deveria ter dito que me amava". Aquilo me atingiu como uma rajada de vento e eu não pude respirar enquanto observava seus olhos e suas trevas se afastarem e o sorriso que brincava em seus lábios se desfazer. No segundo seguinte eu disse, confessei a ela o meu amor, mas já não havia trevas ou oásis. Hera foi brincar em outros campos ou numa nuvem qualquer.



Seu não-lugar no mundo, seus questinamentos, sua vontade de conhecer, no entanto, não morreram. Aquela menina que necessitava ser preenchida e que não encontrou o que procurava - se é que procurava algo - me ensinou que eu deveria ser menos eu. Foi esse medo e esse recuo de todos, sem exceção, que trouxeram o fim da sua história antes que ela tivesse seu clímax. Foi minha culpa. Você teve culpa, todos nós tivemos. Não existiu nada mais assustador, e provavelmente nada mais apaixonante, do que as trevas daquela menina solitária, com nome de deusa e desejo de vida. Ela tinha o mundo aos seus pés, mas o que precisava era apenas um alguém dentro de si, sem medo do que havia nela e do que ela era.

26.6.11

Nada é de graça, não, nem o amor

Principalmente o amor, meu amigo. Sim, amigo, te escrevo hoje pra falar o quanto é penoso, o quanto pode machucar e também o quanto às vezes é a maior das dores, o amor. Custa caro amar, custa caro manter o que quer que pensemos que amor. Seja com palavras, seja com músicas ou com um olhar. O amor, a nossa amizade, custa caro, mas é um preço justo a se pagar. É algo que pago com satisfação e orgulho. Ainda que me recuse a crer que vale a pena, eu pago.
Pois é disso que é feita a vida, não? Me diga, apesar de um desencontro, é você quem eu posso chamar. É o seu número gravado na memória da vida, o sorriso, o abraço feliz e o abraço triste, a mão que segurou a minha tantas vezes. Meus, meus eternos e por vezes momentâneos amigos, estamos falando só da vida. E entenda, ela é traiçoeira, mas não deve ser nada. Os desenganos, as descobertas, o inesperado que estava na nossa frente por tanto tempo e, bom, simplesmente não vimos, mas estava e está ali para mim, para você. Como o amor se revela nos segundos de infinito, como amizades desenham os caminhos da nossa vida, como a maré de sorte ou azar nada pode contra a certeza, a única certeza: eu posso acreditar em você, eu posso te chamar de amigo.


"Sem você a emoção hoje seria pele morta da emoção do passado"
Hipólito


Não é tão fácil ou tão difícil, é só amor. É o que se paga para sorrir ou chorar junto, ou melhor, é o que se paga para ter alguém junto, mesmo que distante. Eu te digo que vale a pena, amigo, confie.

12.6.11

C'est la vie?

Você nunca sabe ao certo o que acontece ali dentro, sabe? Bêbada e irresponsável, pensei à primeira vez que a vi.
A maquiagem borrada, roupas que mais pareciam trapos estilizados por uma criança, sentada na calçada, trêmula, bebia na boca da garrafa o que restava da vodka barata. Seu rosto tinha uma expressão estranha de enjoo, vomitou, e por pouco não caiu de cara no chão. Foi nessa hora que um homem, mais um menino com ares de confiança, se aproximou para ajudá-la. Passou a mão em volta sua cintura, a levantou e segurou em seus braços. Ela tentou, então, se equilibrar, ele não a soltou, apertando-a contra si. Ela se debateu, empurrou o menino com os dois braços, no que ele a acertou com um tapa na cara. Nunca vi tanta fúria, juro a você. Ela cravou as unhas no pescoço dele e mordeu seu lábio. Um murro no nariz e pronto, tinha sangue por todo lado enquanto o pobre garoto gemia caído no chão. Ela saiu, cuspiu alguma coisa que mais tarde eu percebi, era um pedaço do lábio do agressor, recolheu sua coisas e caminhou rápida e cambaleante pela rua estreita.
Amanhecia. A fumaça cinza que saía das chaminés das fábricas ali perto tornaram a cena tão mais misteriosa do que eu desejava. Segui a menina e sua fúria. De algum modo, ainda que naquele monte de lixo em que ela passava as noites se drogando, resistia uma mulher forte, que não se acovardava facilmente. Ela se destrói, sabe? É uma puta fodida que com certeza não vai viver muito. Mas é linda, linda em tudo. O modo como sorri após cheirar ou como simplesmente pára, olha pro céu e respira fundo, como ela revira os olhos me observando a observar.
Bêbada, irresponsável e linda, pensei. E a segui até onde não sei, mas ainda estou aqui, ainda à espreita, esperando minha vez de a levantar do chão sujo. Mas não sei, ela sempre se ergue sozinha, definitivamente não precisa de mim. Mas é bom saber que há alguém para contar.

19.5.11

Disfarçando erros com adeus

Fui te procurar. Sei lá, pensava que estava escondido por ali. Debaixo de um sorriso pretensioso, talvez. Por trás de uma frase otimista. Sei lá, engano meu. Você deixou pra trás a pele, os ossos, a beleza. Quando toquei, estava vazio. Mas não aquele vazio de quem espera por ser preenchido, não aquele vazio que eu conhecia e, quando o vi em você, o senti em mim também. Não, o vazio que agora existia em você era oco. De tudo. Bom trabalho, devo dizer.
Mas é sempre sobre escolhas, né? A escolhe sofrer, escolhe esquecer, deixar de ser, escolhe até machucar, principalmente magoar. E sei lá, o que eu não sei até hoje é como faz pra escolher não amar. Você descobriu a fórmula, não foi? Ou não. Sei lá, dar adeus é quase indolor àqueles que escolhem não se doar. E bom, dar adeus é tão mais fácil que olhar nos olhos e, só assim, contar a verdade. A verdade por trás de desculpas bem construídas pra disfarçar os erros, ou melhor, a escolha de cometer erros. A escolha de fugir, disfarçar e nunca, nunca a escolha de se mostrar, certo? Errado. Eu deveria sentir muito, mas não. Desculpa dizer só agora, mas eu vi. E não tive medo do que estava lá. Eu escolhi amar alguma coisa fadada à desgraça. E errei, mas não pretendo disfarçar.

9.5.11

Vem sem pressa, mas vem



Depois da tempestade, a calmaria. Depois da calmaria vem o quê? Como diriam Camelo e Amarante, deixa ser como será, agora eu vou sem me preocupar, porque vem, eu sei.
Ah, ela vem...e muito bem vinda.
Emoldurada numa porta azul, em um dia de domingo, talvez com borboletas amarelas e uma chuvinha fina, pode ser uma tempestade, não ligo, é a minha chuva. Pra encharcar a alma, lavar as feridas e remover os males. É o meu tempo e minha paz que vem, sem pressa, quando eu menos esperar...já estão aqui.